segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um legado de dignidade e de Fé: Vendelino Fernando Kons

Por Paulo Vendelino Kons

Santa Missa presidida pelo Padre Jônatas Marcos da Silva Santo, do Pontifício Instituto da Missões Exteriores – PIME, às 19h de sábado, (14 I 2012), na Igreja Matriz São Judas Tadeu, em Águas Claras, Brusque/SC, faz memória dos 30 anos de falecimento de Vendelino Fernando Kons, que marcou sua existência terrena pela manifestação da alegria por crer e pelo entusiasmo de comunicar a fé em Jesus Cristo. Em vida, o maior testemunho público sobre sua vida foi do Padre Cláudio Jeremias Cadorin (23 IV 1931 – 30 XI 1994, lembrado e venerado por todos que o conheceram, por sua santidade) quando o delegado de São João Batista, nos tempos do regime militar - motivado por uma denúncia falsa - quis prender Vendelino Fernando. Padre Cláudio compareceu perante o delegado e declarou, apontando para meu pai: “Este homem é um santo, se for para prender alguém, que eu seja preso no lugar dele”. Evidentemente, meu pai e o Padre Cláudio, juntos, deixaram a delegacia.
Nascido aos dois dias do mês de  junho do ano da Graça do Senhor de 1927 - em Braço do Norte, comunidade Santa Maria, Alto Biguaçu, integrante  há época  da Paróquia São Pedro de Alcântara - pelas mãos da parteira Filomena Will, Vendelino Fernando Kons era filho de Fernando Pedro Kons e Maria Schmiz Kons e faleceu em 14 de janeiro de 1982. Encontra-se sepultado no Cemitério Municipal Parque da Saudade, em Brusque, ao lado de sua mãe – a quem tanto amou.


Pioneiros

Para melhor compreender o legado de dignidade e fé de Vendelino Fernando Kons, é imprescindível referenciar seus ancestrais diretos. O bisavô Adam Kons, integrou o grupo de pioneiros alemães que instalaram a primeira colônia alemã em Santa Catarina:  São Pedro de Alcântara, em 1º de março de 1829. o avô paterno Pedro Adão Kons foi por décadas responsável pela celebração do Culto Divino, administração do batismo, sepultamento e tesoureiro da comunidade São Pedro Apóstolo, no Louro (atual município de Antônio Carlos). Também dedicava-se a outras atividades comunitárias, como o ensino das primeiras letras, sempre de forma voluntária. Casado com Margarida Scherer e posteriormente com a irmã de Margarida, era reconhecido como “pessoa muito religiosa e honesta”. Foi pai de 12 filhos, sendo que Fernando Pedro Kons nasceu em 27 de junho de 1889.
Também integrante do grupo de imigrantes alemães pioneiros, Nicolau Pedro Schmitz contraiu núpcias com Cristina Schuh e deixou como legado a doação da terra e a construção da igreja dedicada à Mãe do Redentor, na localidade de Santa Maria, Alto Biguaçu. Seu filho Pedro Nicolau casou com Sofia Allein e tiveram cinco filhos: Nicolau Pedro, Maria Schmitz (em 27 II de 1899), Fernando Pedro, Vendelino Pedro e Apolônia (Irmã Turíbia, da Congregação das Irmãs Franciscanas de São José – CIFSJ, que dedicou mais de meio século de sua vida a promover o bem, tendo durante 17 anos trabalhado num “leprosário”(na região de Curitiba/PR), sem energia elétrica e em condições muito precárias).
Logo após encerrada a Guerra do Contestado, Fernando Pedro Kons – num lustroso cavalo branco – dirigiu-se com a Família Müller do Alto Biguaçu para Canoinhas, no Planalto Norte (então uma nova frente colonizadora). Após desencanto com a namorada Müller (muito namoradora), Fernando, orientado pelo Padre da região, retornou – via Porto de São Francisco Sul (onde vendeu seu cavalo e embarcou em navio de Carl Hoepcke até o Estreito - Florianópolis). Após o término da primeira Guerra Mundial, em 22 de junho, contraíram núpcias Fernando Pedro Kons e Maria Schmitz.

Infância

Residindo em Braço do Norte, Santa Maria (atual município de Antônio Carlos) Fernando Pedro e Maria Schmitz tiveram os filhos: Antônio Fernando, Deonízio Fernando, Vendelino Fernando, Aloísio Fernando, Maria Apolônia (Tia Maricha – muito conhecida em Brusque pelos anos que trabalhou no Posto de Saúde do Maluche), Deolinda Angelina (reside nas proximidades da Escola Padre Luiz Gonzaga Steiner – na travessa Lagoa Dourada, sendo fonte de muitas informações biográficas e participante da Comunidade Santa Paulina), Leo Afonso e quatro crianças com deficiência grave: Pedro Fernando, José Fernando, Francisco Fernando e Sebastião Fernando. Vida familiar centrada na Fé em Jesus Cristo, com a recitação diária, em alemão e de joelhos, de um terço do Rosário de Nossa Senhora. Após o primeiro ano de estudos em alemão, morando em casa de parente próxima da escola da Varginha, em São Pedro de Alcântara, Vendelino Fernando Kons foi surpreendido pela proibição da Deutsche Schule (escola alemã) e foi obrigado pelos governos de Getúlio Vargas e Nereu Ramos a estudar em português. Acometido de malária de forma reiterada, foi Vendelino levado por sua família para o Colégio Catarinense, dos Padres Jesuítas, em Florianópolis. Por orientação médica, procurou uma clima mais frio, para “livrar-se da malária”. Passou a residir, então com 20 anos, em  Vargedo (atual município de Leoberto Leal) com uma filha adotiva dos avós maternos (Sopia e  Pedro Nicolau), Catarina Müller, casada com Aloísio Müller.

Casamento com Maria May

Seu irmão Deonízio Fernando casou com Maria Bepler e passou  a residir no Rio Quebra Dente, em Barra Clara, São José, hoje município de Angelina. Ao visitar o irmão Deonízio, Vendelino conheceu e se enamorou por Maria May (nascida em 28 de agosto  de 1934), filha mais velha do próspero agricultor João May e de Dorvalina Rech May. O matrimônio foi oficiado na manhã de um sábado chuvoso, dia 17 de julho de  1954, na Igreja São José, em Barra Clara, pelo Padre Frei Flaviano Mormann, da Ordem dos Frades Menores – OFM.

Oito Filhos

Residindo inicialmente em terras da grande propriedade do sogro João May (possuidor de oito lotes de boa terra), transferiu-se para Santa Maria e posteriormente para o Faxinal, na Antinha, e por fim para Arataca, distrito de Tigipió, São João Batista. De comum acordo, todos os oito filhos foram batizados com nomes de grandes santos: José, Pedro, Maria Bernadete, Sebastião, Teresinha, João, Paulo e Anastácia. Marcou o testemunho diário de Fé e integral confiança na Divina Misericórdia. Sempre nos alertava de que com “Deus não se brinca”, ensinando-nos o respeito pelo sagrado. Com seus filhos mais velhos, participou da construção da Igreja Sagrado Coração de Jesus,  em Arataca, como trabalhador voluntário. Fazia absoluta questão da oração em família de manhã, ao meio dia e à noite, inclusive muitas vezes o terço recitado de joelhos. Por horas procedia a leitura da “História Sagrada” (compêndio da Bíblia) e nos explicava com muito amor toda a História da Salvação. Por anos, deslocou-se numa bicicleta num percurso de 38 quilômetros para participar da Santa Missa dominical, na Igreja Matriz São João Batista. Manteve relação de amizade profunda com Padre Cláudio Cadorin, Monsenhor José Locks e Monsenhor Gregório Locks, dentre outros. No dia em que completou 42 anos, em 2 de junho de 1969, minha mãe me deu à luz. Assim, em cada dois de junho, juntos comemorávamos nosso aniversário natalício. Após internado no Hospital Santa Inês, em Balneário Camboriú, foi transferido para o Imperial Hospital de Caridade, da Irmandade Senhor Jesus dos Passos, onde faleceu há exatos 30 anos. Pela vida de Vendelino Fernando Kons, Laudate Dominum!

[Artigo publicado no Jornal Em Foco do dia 17/01/2012 - páginas 8 e 9]

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